sábado, 21 de novembro de 2009

Autopsicografia

Magritte

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

(Fernando Pessoa)

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

O capoeira

Pierre Verger


— Qué apanhá sordado?
— O quê?
— Qué apanhá?
Pernas e cabeças na calçada.

(Oswald de Andrade)

Psicologia de um vencido

Amadeo de Souza-Cardoso

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundíssimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme — este operário das ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há-de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!

(Augusto dos Anjos)

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

A ponto de partir


A ponto de
partir, já sei
que nossos olhos
sorriam para sempre
na distância.
Parece pouco?
Chão de sal grosso, e ouro que se racha.
A ponto de partir, já sei que nossos olhos sorriem na distância.
Lentes escuríssimas sob os pilotis.

(Ana Cristina Cesar)
Ana Cristina Cesar

[...] Ela viveu a radicalidade da fusão arte-vida no mesmo nível em que a viveram Hélio Oiticica, Torquato Neto, apenas foi mais discreta, mais "low profile", atuando na área de convivência humana difícil e acanhada que é a literatura, garota até certo ponto comum, aluna aplicada, professora responsável, loucura em fogo brando, mas persistente, escondida pelas lentes enganadoras de uma lucidez que de tão aguda dóia, nela e em quem dela se aproximasse. Louco giroscópio da lucidez. Te acalma, minha loucura!, assim diz o verso de Mário que ela utilizou num poema. Loucura, pássaro que alimentamos com carinho para suportar a melancolia e vencer o tédio infinito. Pão cotidiano. O problema é aprender a contorná-la, domesticá-la [...].

(Italo Moriconi, in: Ana Cristina Cesar / O Sangue da Poeta)

Titikus

Elotopia.net

o gato da odete foi para o céu
ontem vi aqueles olhos verdes
diziam-me - aqui é bom
estou bem
a lua é cheia de leite
avisa para odete.

(Líria Porto)

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Escritos extraídos do silêncio (I)


Na calada da noite,
esboço um frágil exercício de recolher escritos.

Na calada de mim mesma,
escritos extraídos do silêncio.

Silêncio e mudez.
Fluxo que acontece à minha revelia,
enquanto pastoreio nuvens, deserta de mim,
ausente do concreto.

O chão, impossível sempre.

(Ana Cecília de Sousa Bastos)

Gruta

Alaya Gadeh

ninguém
em meu peito há.

corpo sem rosto,
chama sem nome.

por ti, ninguém,
eu chamo.

só tu, ninguém,
respondes.

ninguém que bem
me ama.

ninguém em minha
cama.

se ao menos
na hora do gozo,
ulisses,
me desses teu gosto...

(Raiça Bomfim)

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.


As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

(Carlos Drummond de Andrade)

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Filosofia


Hora de comer — comer!
Hora de dormir — dormir!
Hora de vadiar — vadiar!
Hora de trabalhar?

— Pernas pro ar que ninguém é de ferro!

(Ascenso Ferreira)

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

I

Nonnetta

Um coração aberto recebe igualmente amores e dores. Segura o coração frente ao corpo, entre as mãos, para sentir intensamente o que vem de fora, ele tentará escapar, pulsando na vibração de um tambor nervoso, ele tentará escapar, liquefazendo-se em sangue a escorrer entre os dedos, segure-o firme e feche os olhos para que não haja o risco das imagens transformarem-se em lógica, o cérebro numa câmara escura dorme.

(Camila Vardarac)

Adieu


Há muito tempo me despeço todos os dias.
Estou pronta para ir embora:
as malas já feitas à porta, o dinheiro no bolso,
o bilhete na mão e o destino a esperar.
Jurei que só voltaria quando me pedissem
e agora é por isso que não posso mais partir.
Ninguém vai me chamar de volta,
nem nunca vai dizer o quanto me quis.
Serei a única a esparramar na plataforma
a dor de um adeus solitário.
Posso ouvi-la fundida ao ferro dos trilhos,
gemendo por todo o caminho que é assim
que vamos ficar: nos hiatos paralelos repetidos
palmo a palmo até a gente adormecer em tormento.
Sem descanso. Nos vagões ela embala os pesadelos
e o medo de chegar para sempre carregando sozinha
esse peso morto que é o amor não correspondido.

(Chris Ritchie)

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Sobre a amizade

Elotopia.net

Ela chora comigo.

Mesmo quando suas lágrimas não caem.

(Maria do Céu)

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

A Hilda Hilst

Clarice Lispector

PA, 29.12.70

Hildinha, a carta para você já estava escrita, mas aconteceu agora de noite um negócio tão genial que vou escrever mais um pouco. Depois que escrevi para você fui ler o jornal de hoje: havia uma notícia dizendo que Clarice Lispector estaria autografando seus livros numa televisão, à noite. Jantei e saí ventando. Cheguei lá timidíssimo, lógico. Vi uma mulher linda e estranhíssima num canto, toda de preto, com um clima de tristeza e santidade ao mesmo tempo, absolutamente incrível. Era ela.

Me aproximei, dei os livros para ela autografar e entreguei o meu Inventário. Ia saindo quando um dos escritores vagamente bichona que paparicava em torno dela inventou de me conhecer e apresentar. Ela sorriu novamente e eu fiquei por ali olhando. De repente fiquei supernervoso e sai para o corredor.

Ia indo embora quando (veja que GLÓRIA) ela saiu na porta e me chamou: — “Fica comigo.” Fiquei. Conversamos um pouco. De repente ela me olhou e disse que me achava muito bonito, parecido com Cristo. Tive 33 orgasmos consecutivos. Depois falamos sobre Nélida (que está nos States) e você. Falei que havia recebido teu livro hoje, e ela disse que tinha muita vontade de ler, porque a Nélida havia falado entusiasticamente sobre o Lázaro. Aí, como eu tinha aquele outro exemplar que você me mandou na bolsa, resolvi dar a ela.

Disse que vai ler com carinho. Por fim me deu o endereço e telefone dela no Rio, pedindo que eu a procurasse agora quando for. Sai de lá meio bobo com tudo, ainda estou numa espécie de transe, acho que nem vou conseguir dormir. Ela é demais estranha. Sua mão direita está toda queimada, ficaram apenas dois pedaços do médio e do indicador, os outros não têm unhas. Uma coisa dolorosa. Tem manchas de queimadura por todo o corpo, menos no rosto, onde fez plástica. Perdeu todo o cabelo no incêndio: usa uma peruca de um loiro escuro.

Ela é exatamente como os seus livros: transmite uma sensação estranha, de uma sabedoria e uma amargura impressionantes. É lenta e quase não fala. Tem olhos hipnóticos, quase diabólicos. E a gente sente que ela não espera mais nada de nada nem de ninguém, que está absolutamente sozinha e numa altura tal que ninguém jamais conseguiria alcançá-la. Muita gente deve achá-la antipaticíssima, mas eu achei linda, profunda, estranha, perigosa.

É impossível sentir-se à vontade perto dela, não porque sua presença sej a desagradável, mas porque a gente pressente que ela está sempre sabendo exatamente o que se passa ao seu redor. Talvez eu esteja fantasiando, sei lá. Mas a impressão foi fortíssima, nunca ninguém tinha me perturbado tanto. Acho que mesmo que ela não fosse Clarice Lispector eu sentiria a mesma coisa. Por incrível que pareça, voltei de lá com febre e taquicardia. Vê que estranho. Sinto que as coisas vão mudar radicalmente para mim — teu livro e Clarice Lispector num mesmo dia são, fora de dúvida, um presságio.

Fico por aqui, já é muito tarde. Um grande beijo do teu
Caio

(Caio Fernando Abreu, in: Carta a Hilda Hilst - Caio 3D - Decáda de 70)

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Que


Qual candura removeu seu sofrimento?
Que esperança devolveu
muito tenro o seu sorriso?
Que força a sustém?
Não, não me responda.
Deixe-me quieta, quase solitária.
Pretendo dar meus próprios passos,
para que não reste
dívida alguma nestes versos.

(Elaine Pauvolid)

Carta


Meu caro amigo,
estou cansada de tentar
fazer o correto;
tudo me desalinha.
Sigo, decerto,
sem a menor noção
do que é certo;
vou bem.

(Elaine Pauvolid)

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

?


A Taylor van Horne, e em homenagem aos poetas do desassossego.


há uma parte da vida que me apavora
este desassossego entre árvores e águas
segredos, sinos, mistério.

um não sei o quê
calmaria e turbulência.

sair e ao voltar querer sair querendo ficar
para os braços ou para o ventre?

é noite, noite
o vento no rosto em alta velocidade
vento, nuvens:

o júbilo, o Nada, o sem nome, o Nunca Mais.

(Cristiane Grando)

½ dor


Ando
lacrimejando
um olho só.
Que dor é essa
que se sofre
de um lado apenas?

(Cecília Borges)

Pulmão de Deus


Sussurro suave ao redor, nuvem
de seda embalando astros.
Aqui, onde respira a vida,
perfume de malva, silêncio de córrego
entre pedras. Ar lúcido de luz.

(Bárbara Lia)

Desencontro


Remexo dentro de mim,
nem sempre é fácil
saber a parte de nós
que ficou no caminho:
toco... Faço a ferida arder.
Sentir a ferida, é a maneira
mais rápida de curá-la.
Nada em mim foi covarde,
nem mesmo as desistências:
desistir, ainda que não pareça,
foi meu grande gesto de coragem.

(Cáh Morandi)

Separação


Desmontar a casa
e o amor. Despregar
os sentimentos das paredes e lençóis.
Recolher as cortinas
após a tempestade
das conversas.
O amor não resistiu
às balas, pragas, flores
e corpos de intermeio.

Empilhar livros, quadros,
discos e remorsos.
Esperar o infernal
juizo final do desamor.

Vizinhos se assustam de manhã
ante os destroços junto à porta:
- pareciam se amar tanto!

Houve um tempo:
uma casa de campo,
fotos em Veneza,
um tempo em que sorridente
o amor aglutinava festas e jantares.

Amou-se um certo modo de despir-se
de pentear-se.
Amou-se um sorriso e um certo
modo de botar a mesa. Amou-se
um certo modo de amar.

No entanto, o amor bate em retirada
com suas roupas amassadas, tropas de insultos
malas desesperadas, soluços embargados.

Faltou amor no amor?
Gastou-se o amor no amor?
Fartou-se o amor?

No quarto dos filhos
outra derrota à vista:
bonecos e brinquedos pendem
numa colagem de afetos natimortos.

O amor ruiu e tem pressa de ir embora
envergonhado.

Erguerá outra casa, o amor?
Escolherá objetos, morará na praia?
Viajará na neve e na neblina?

Tonto, perplexo, sem rumo
um corpo sai porta afora
com pedaços de passado na cabeça
e um impreciso futuro.
No peito o coração pesa
mais que uma mala de chumbo.

(Affonso Romano de Sant'Anna)

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Extremos da paixão

Nonnetta

Não, meu bem, não adianta bancar o distante lá vem o amor nos dilacerar de novo...

Andei pensando coisas. O que é raro, dirão os irônicos. Ou "o que foi?" - perguntariam os complacentes. Para estes últimos, quem sabe, escrevo. E repito: andei pensando coisas sobre amor, essa palavra sagrada. O que mais me deteve, do que pensei, era assim: a perda do amor é igual à perda da morte. Só que dói mais. Quando morre alguém que você ama, você se dói inteiro (a) mas a morte é inevitável, portanto normal. Quando você perde alguém que você ama, e esse amor - essa pessoa - continua vivo (a), há então uma morte anormal. O NUNCA MAIS de não ter quem se ama torna-se tão irremediável quanto não ter NUNCA MAIS quem morreu. E dói mais fundo- porque se poderia ter, já que está vivo (a). Mas não se tem, nem se terá, quando o fim do amor é: NEVER.
Pensando nisso, pensei um pouco depois em Boy George: meu-amor-me-abandonou-e-sem-ele-eu-nao-vivo-então-quero-morrer-drogado. Lembrei de John Hincley Jr., apaixonado por Jodie Foster, e que escreveu a ela, em 1981: "Se você não me amar, eu matarei o presidente". E deu um tiro em Ronald Regan. A frase de Hincley é a mais significativa frase de amor do século XX. A atitude de Boy George - se não houver algo de publicitário nisso - é a mais linda atitude de amor do século XX. Penso em Werther, de Goethe. E acho lindo.
No século XX não se ama. Ninguém quer ninguém. Amar é out, é babaca, é careta. Embora persistam essas estranhas fronteiras entre paixão e loucura, entre paixão e suicídio. Não compreendo como querer o outro possa tornar-se mais forte do que querer a si próprio. Não compreendo como querer o outro possa pintar como saída de nossa solidão fatal. Mentira: compreendo sim. Mesmo consciente de que nasci sozinho do útero de minha mãe, berrando de pavor para o mundo insano, e que embarcarei sozinho num caixão rumo a sei lá o quê, além do pó. O que ou quem cruzo entre esses dois portos gelados da solidão é mera viagem: véu de maya, ilusão, passatempo. E exigimos o terno do perecível, loucos.
Depois, pensei também em Adèle Hugo, filha de Victor Hugo. A Adèle H. de François Truffaut, vivida por Isabelle Adjani. Adèle apaixonou-se por um homem. Ele não a queria. Ela o seguiu aos Estados Unidos, ao Caribe, escrevendo cartas jamais respondidas, rastejando por amor. Enlouqueceu mendigando a atenção dele. Certo dia, em Barbados, esbarraram na rua. Ele a olhou. Ela, louca de amor por ele, não o reconheceu. Ele havia deixado de ser ele: transformara-se em símbolos em face nem corpo da paixão e da loucura dela. Não era mais ele: ela amava alguém que não existia mais, objetivamente. Existia somente dentro dela. Adèle morreu no hospício, escrevendo cartas (a ele: "É para você, para você que eu escrevo" - dizia Ana C.) numa língua que, até hoje, ninguém conseguiu decifrar.
Andei pensando em Adèle H., em Boy George e em John Hincley Jr. Andei pensando nesses extremos da paixão, quando te amo tanto e tão além do meu ego que - se você não me ama: eu enlouqueço, eu me suicido com heroína ou eu mato o presidente. Me veio um fundo desprezo pela minha/nossa dor mediana, pela minha/nossa rejeição amorosa desempenhando papéis tipo sou-forte-seguro-essa-sou-mais-eu. Que imensa miséria o grande amor - depois do não, depois do fim - reduzir-se a duas ou três frases frias ou sarcásticas. Num bar qualquer, numa esquina da vida.
Ai que dor: que dor sentida e portuguesa de Fernando Pessoa - muito mais sábio -, que nunca caiu nessas ciladas. Pois como já dizia Drummond, "o amor car(o,a,) colega esse não consola nunca de núncaras". E apesar de tudo eu penso sim, eu digo sim, eu quero Sins.

(Caio Fernando Abreu, in: Pequenas Epifanias)

quarta-feira, 4 de novembro de 2009


[...] mudou de cara e cabelos mudou de olhos e risos mudou de casa
e de tempo: mas está comigo está
perdido comigo
teu nome
em alguma gaveta [...].

(Ferreira Gullar, in: Fragmento de Poema Sujo)

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Saudosa amnésia


Memória é coisa recente.
Até ontem, quem lembrava?
A coisa veio antes,
ou, antes, foi a palavra?
Ao perder a lembrança.
grande coisa não se perde.
Nuvens, são sempre brancas.
O mar? Continua verde.

(Paulo Leminski)

Arte do chá


ainda ontem
convidei um amigo
para ficar em silêncio
comigo.

ele veio
meio a esmo
praticamente não disse nada
e ficou por isso mesmo.

(Paulo Leminski)

domingo, 1 de novembro de 2009

Reverberação


O destino trama os dias
e desfaz o sonho: demarca
meus contornos, partes
disso que sou e serei.

Quem sabe desejei demais:
milagres não me bastaram,
mas quando eu quis ser rainha
fui simplesmente humana.

A voz da vida insiste,
chama para o que salva
ou desatina:
nem sempre a entendi.

Palavras buscam sentido
para o que fiz, falhei,
conquistei e perdi
- ou que me abandonou
nalguma esquina.

(Talvez eu precisasse é dos silêncios.)

(Lya Luft, in: Para não dizer adeus)

Revelação


Quando chegaste,
redescobri em mim inocência e alegria.
Removi a máscara que sobrava:
nada havia a esconder de ti,
nem medo - a não se partires.

Supérfluas as palavras,
dispensada a aparência, fiquei eu,
sem prumo,
como antes da primeira dúvida
e do ultimo desencanto.

Quando chegaste,
escutei meu nome como num outro tempo.
o meu lado da sombra entregou
o que ninguém via:
as feridas sem cura e a esperança sem rumo.

Começa a crer, por mim, que o amor é possível,
e que a vida vale a pena e o pranto
de cada dia.

(Lya Luft, in: Para não dizer adeus)

Dizendo adeus


Estou sempre dando adeus:
também ao desencontro e ao
desencanto.

Estou sempre me despedindo
do ponto de partida que me lança de si,
do ponto de chegada que nunca é
aqui.

Estou sempre dando adeus:
até a Deus,
para reencontrar em outra esquina
de adeuses.

Estarei sempre de partida,
até o momento de sermos deuses:
quando me fizeres dar adeus á solidão
e à sombra.

(Lya Luft, in: Para não dizer adeus)

[...] Temos dificuldade em lidar com o silêncio: ele ressoa mal no vazio do nosso interior. Embora seja difícil de curtir (ah, a música ao vivo, a praia com alto-falantes, a ginástica dirigida, os brinquedos comandados, a diversão atordoante em casa, no clube, no mar...), é nele que nos humanizamos - pela palavra certa, a palavra boa, a palavra respeitosa mas firme.

O medo de errar muitas vezes nos leva ao erro, e o desejo excessivo de acertar nos rouba a naturalidade: calamos quando seria melhor falar, falamos quando teria sido melhor dizer alguma coisa, qualquer coisa.

Mas nem sempre sabemos a hora, a palavra, a pessoa certa.

Assim como solidão não precisa significar isolamento, silêncio não precisa ser um corte: pode ser nossa melhor maneira de falar, naquele momento, com aquele interlocutor. Aí ele não compreende, e, mais uma vez, somos incomunicáveis.

Calar pode ser um bom exercício para nossa mente aflita de tantas informações, paralisada entre tantas escolhas, dilacerada em transformações vertiginosas como as deste tempo nosso.

Pensar sobre nós e nossa vida é um exercício: o que eu realmente desejaria ser, e o que posso fazer? Como chegar perto de mim, eu mesmo, esse que está sempre por ser descoberto?

Pode ser um bom começo ouvir a chuva no telhado, a pessoa amada vindo pelo corredor, e a consciência que fala ao nosso coração - quando ele está atento.

(Lya Luft, in: Em Outras Palavras)