8.2.10

[...]Tenho em mim todos os sonhos do mundo.

(Álvaro de Campos, in: Heterônimo de Fernando Pessoa)

7.2.10

Elegia

Liberdade,
sem ti nada mais sei.

Compreendi o mundo
em ti, sutil
compêndio.

Amei muito antes
de me amares,
entre surtos e sulcos.

Amei
e só a morte
de perder-te
me faz viver
multiplicando
auroras, meses.

E sou tão doido
que o riso inútil
percorri
de me perder, perdendo-te,
perdido em mim.

(Carlos Nejar)

Redondel

O coração se acrescenta
ao coração se acrescenta
a outro e senta sob a árvore
- tudo tão nuvem entre
um coração e outro -
redondos os sins, os vãos,
a noite na concha
do coração, o pampa
e os corações sentados
e um coração voando.

Mudando, tudo é possível
recomeçar.

(Carlos Nejar)

Se tanto me dói que as coisas passem

Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na busca de um bem definitivo
Em que as coisas de Amor se eternizassem.

(Sophia de Mello Breyner Andresen)

No ponto onde o silêncio


No ponto onde o silêncio e a solidão
Se cruzam com a noite e com o frio,
Esperei como quem espera em vão,
Tão nítido e preciso era o vazio.

(Sophia de Mello Breyner Andresen)

6.2.10

Epigrama Nº 8

Juliana Moraes
Encostei-me a ti, sabendo bem que eras somente onda.
Sabendo que eras nuvem, depus a minha vida em ti.

Como sabia bem tudo isso, e dei-me ao teu destino frágil,
fiquei sem poder chorar quando caí.

(Cecília Meireles)

Fio

No fio da respiração,
rola a minha vida monótona,
rola o peso do meu coração.

Tu não vês o jogo perdendo-se
como as palavras de uma canção.

Passas longe, entre nuvens rápidas,
com tantas estrelas na mão...

- Para que serve o fio trêmulo
em que rola o meu coração?

(Cecília Meireles)

Herança

Eu vim de infinitos caminhos,
e os meus sonhos choveram lúcido pranto
pelo chão.

Quando é que frutifica, nos caminhos infinitos,
essa vida, que era tão viva, tão fecunda,
porque vinha de um coração?

E os que vierem depois, pelos caminhos infinitos,
do pranto que caiu dos meus olhos passados,
que experiência, ou consolo, ou prêmio alcançarão?

(Cecília Meireles)

Leveza

Leve é o pássaro:
e a sua sombra voante,
mais leve.

E a cascata aérea
de sua garganta,
mais leve.
E o que lembra, ouvindo-se
deslizar seu canto,
mais leve.
E o desejo rápido
desse mais antigo instante,
mais leve.
E a fuga invisível
do amargo passante,
mais leve.

(Cecília Meireles)

5.2.10

Meio termo

Nonnetta
Ah! Como eu tenho me enganado
como tenho me matado
por ter demais confiado
nas evidências do amor
como tenho andado certo
como tenho andado errado
por seu carinho inseguro
por meu caminho deserto
como tenho me encontrado
como tenho descoberto
a sombra leve da morte
passando sempre por perto
o sentimento mais breve
rola no ar e descreve a eterna cicatriz
mais uma vez,
mais de uma vez,
quase que fui feliz!

(Cacaso)

Cinema antigo

Kurt Halsey Frederiksen
Se eu pudesse escolher o seu desejo
Eu queria renascer no seu amor
Todo dia pra você, todo dia só pra mim
Nosso dia vai durar eternamente
Quero apenas a promessa do seu beijo
Quero apenas um vintém do seu amor
E sonhar os sonhos seus
Dar adeus a todo adeus
Sem fantasia, um tempo só, um dia.

(Cacaso)
Moro entre o dia e o sonho.
Onde cochilam crianças, quentes da correria.
Onde velhos para a noite sentam
e lareiras iluminam e aquecem o lugar.
Moro entre o dia e o sonho.
Onde tocam claros sinos vesperais
e meninas, perdidas da confusão,
descansam à boca do poço.
E uma tília é minha árvore querida;
e todos os verões que nela se calam
movem outra vez os mil galhos,
e acordam de novo entre o dia e o sonho.

(Rainer Maria Rilke)

Não deves entender a vida...

Não deves entender a vida,
seria então como uma festa.
Deixe que cada dia aconteça,
como uma criança que passa
e a cada dor
com muitas pétalas se presenteia.

Juntá-las e guardá-las
para a criança não tem sentido.
Retira-as suavemente dos cabelos,
onde tão facilmente se prenderam,
retoma os jovens e amados anos
de novo em suas mãos.

(Rainer Maria Rilke)

Saudade

Esta é a saudade: viver no afeto
E não ter morada no tempo
Estes são os desejos: conversa silenciosa
Horas diárias com a eternidade.

Esta é a vida. Até que de um ontem
suba a mais solitária de todas as Horas
Tão sorridente, diferente das irmãs
que se calam eternamente.

(Rainer Maria Rilke)

4.2.10

Caligrafia

Tradução de Fernando Fábio Fiorese Furtado


Existe um nome, um ideograma
um signo tangível
para representar a amargura?

Eu o procuro mas não encontrei.
O silêncio apenas seria capaz
de bradar toda a sua dignidade?

(Silvia Härri)

Depressa, a manhã

Tradução de Fernando Fábio Fiorese Furtado


Não permitirei
que a ausência se avizinhe
nem que a dúvida aflore.
É um privilégio
de tuas mãos apenas
do teu corpo
que envolve o meu
e canta
tal uma onda que rebenta.

(Silvia Härri)

Miragem

terrível amar as sombras
os fantasmas as ausências

estender os braços
inutil_mente.

(Líria Porto)

Ego

eu de mim não me queria
minhas grandes inconstâncias
minhas tantas insolências
meu saltitar cansativo
e de mim quase abortei.

então de mim fui ficando
fui gostando dessa mim
acomodando-me as beiras
e se eiras eu não tinha
agora tenho.

eu de mim já muito quero
pus-me à frente em minha fila
mas porém sem holofote
dessa luz eu não preciso
tenho eu clarão de mim.

(Líria Porto)

3.2.10

Assombração

Lilya Corneli
Minhas sombras têm vida.
Está toda nelas
aquela que era minha,
que me fazia menina,
mexer o corpo
dançando,
abrir a boca
sorrindo,
fechar os olhos
amando.

Hoje, quando caminho
cabeça baixa,
melancólica,
elas ficam de chacota
zombaria.
Vão, mal-educadas
divertindo-se
atrás de mim.

(Samantha Abreu)

Aspiração

São milhas de estrada
e o vento toma o peito,
desfaz o nó na garganta,
desembaraça os cabelos,
esvaziamento.

O Amor bagunça nosso hall.
Visitas reparam,
casa revirada
sujeiras escondidas em cantinhos
esquecidos.

(Samantha Abreu)

2.2.10

Absoluta

Eu sou uma mulher que pulsa.
E pulsa em mim, além da vida,
a vontade inerente à minha natureza
a vontade pura, transparente, avulsa,
que faz em mim a fera mais temida
e mais pulsante, e de maior beleza.

A mulher em mim se descompassa
e o pulso faz-se oculto pela blusa
que tem a cor e o tom da minha pele.
Mulher macia, gesto são, alma devassa,
que perde o rumo, a chave, se põe confusa
no medo enorme de que o sonho se revele.

Eu sou uma mulher que se eterniza.
Trago sementes mortas que o beijo ressuscita,
e que germinam paixões, flores e frutos.
Gosto da gota de suor quando desliza
e, quando abro o botão da rosa que me habita,
conto o segredo dos heróis mais dissolutos.

(Patrícia Moresco)

Cantiga anônima

O que me desempenha?

Biografo-me nos dias
em calmaria,
nos livros suados à tinta
à revelia,
nos amigos distantes,
nos beijos do sim,
do não, da partida
nem sempre bem-vinda,
na maresia da família
a rolar cantorias
no luar do sol
nos dias de mar
a remar rima
e selvageria.

Homem-Lobisomem,
qual o seu nome?

(Rosane Villela)

31.1.10

Tenho aprendido com o tempo que a felicidade vibra na frequência das coisas mais simples. Que o que amacia a vida, acende o riso, convida a alma pra brincar, são essas imensas coisas pequeninas bordadas com fios de luz no tecido áspero do cotidiano. Como o toque bom do sol quando pousa na pele. A solidão que é encontro. O café da manhã com pão quentinho e sonho compartilhado. A lua quando o olhar é grande. A doçura contente de um cafuné sem pressa. O trabalho que nos erotiza. Os instantes em que repousamos os olhos em olhos amados. O poema que parece que fomos nós que escrevemos. A força da areia molhada sob os pés descalços. O sono relaxado que põe tudo pra dormir. A presença da intimidade legítima. A música que nos faz subir de oitava. A delicadeza desenhada de improviso. O banho bom que reinventa o corpo. O cheiro de terra. O cheiro de chuva. O cheiro do tempero do feijão da infância. O cheiro de quem se gosta. O acorde daquela risada que acorda tudo na gente. Essas coisas. Outras coisas. Todas, simples assim.

(Ana Jácomo)

Canção para o Exílio

Minha terra sem palmeiras
tem poetas a cantar
A vida, eu quero inteira
mas ela fugiu de lá

Dos nossos céus roubaram estrelas
Somos vazos, mas sem flores
nesta terra o amor
é tão frio quanto a morte

Em versar, na pura noite
nem meus versos são de lá
desmataram as florestas
onde tinha sabiá

Minha terra tem amores
que Deus não quis inventar
em versar - eu choro as dores
que me fazem encontrar
e ainda sonham com palmeiras
onde canta o sabiá

Me permita Deus que eu morra
mas não volte para cá
que não sinta mais as dores
nem Gonçalves a cantar
a ilusão dessas palmeiras
e seu doente sabiá.

(Sérgio Silva)

29.1.10

Às vezes sinto vontade de distanciar-me do solo, às vezes preciso fazer transbordar o mundo inteiro de amor, às vezes necessito de êxtase para alimentar meu cérebro.
Quando não existe nada mais senão eu e o céu estrelado, a lua assume uma expressão infantil e não ouso mais lhe sorrir. Sinto poder ser uma criança também, são elas os verdadeiros observadores do universos.

(Mian Mian, in: Bombons Chineses)

Confesso

nem tudo que disse foi acerto,
que não reconheço quase nada como erro,
que volto atrás em promessas sérias,
que muitos chutes foram trave,
que trave, para mim, é um quase acerto,
o limite do engano... e isso é grave.

que era eu ao telefone
porque tem dias, poucos, que um alô é muito
e o muito, muitas vezes me cala.

confesso
quis também um silêncio salmoura
que me reconhecesse antes mesmo de ser alô
e também se calasse
que dissesse sei que foi você,
porque só seu silêncio me dói
e isso bastasse.

(Roberta Silva)

Inconcordante

Meus olhos chorou.
Neles lágrimas para um só.
Alma plural, verbo singular.
O outro jaz.
Perdão, foi o melhor que pude.
A dor cavou,
mas não encheu o açude.

(Roberta Silva)

28.1.10

Foi num dia de muita chuva
E pouco lugar pra me esconder,
Que o amigo olhou-me e disse:
Sigamos com calma e fé
A chuva não passou,
Tampouco se abrandou,
Mas, a partir dali,
Perdi o medo de me molhar.

(Renata Pereira)

Pra não sentir (auto) piedade

quero uma tarde de vento. ventania. um tornado. leve. que me leve ao chão.
quero machucar o joelho. joelhos. terra carne sangue vento. minhas compras ao chão a encontrar novos livros.
quero o cuidado de mãos estrangeiras. desconhecidas. um apartamento num prédio antigo. quem sabe um café de esquina.
quero uma poesia arrancada. como um souvenir. aulas de cerâmica. algo que eu fizesse por mim mesma. um festival de filmes asiáticos.
quero a alegria. o toque da descoberta. a primeira noite.
a sensibilidade dos infiéis. a coragem dos suicidas.

(Nina Rizzi)

À deriva

o mar vem e volta
não se prende à areia

e há folhas secas
soltas pelo ar

carrego na alma
o peso do vazio

e faz muito frio
não poder ficar.

(Líria Porto)
Penso em você todos os dias, todos os dias me interrogo, os hábitos são tão difícies de mudar, meu doce e pequeno coração perdeu sua doçura, porque caminha assim tão solitário, não tem medo da tempestade que se levanta no mar? Se a água corrente pode mudar de rumo, leve-me com você, se viro água corrente as lágrimas continuarão a cair, se eu sou água límpida, não voltarei atrás, o tempo passa, o tempo é fugidio, não volta nunca. Como são bonitas as flores desabrochando nos galhos, elas murcham, florescem novamente, como compreender, você é a estrela, eu sou a nuvem, é o amor que carece de profundidade ou somos nós que não éramos predestinados. É preciso aceitar tudo o que está ao seu lado hoje, você me ama, eu a amo, não pergunte de onde vem o amor, não queira saber de onde sopra o vento, o amor é como uma canção ou um quadro, espero que você não me esqueça, o vento veio me perguntar: o que é a solidão? Ainda sou tão jovem, como posso saber? A nuvem veio me perguntar: o amor é alegre? Eu que não posso ainda distinguir as emoções, como poderia saber?

(Mian Mian, in: Bombons Chineses)

Encostando o ouvido à noite

Se tu soubesses da solidão das palavras
enrolarias o silêncio
na noite sem pirilampos

depois
como numa prece

ouvirias do mar o canto.

(Helena Monteiro)