quarta-feira, 11 de novembro de 2009

A Hilda Hilst

Clarice Lispector

PA, 29.12.70

Hildinha, a carta para você já estava escrita, mas aconteceu agora de noite um negócio tão genial que vou escrever mais um pouco. Depois que escrevi para você fui ler o jornal de hoje: havia uma notícia dizendo que Clarice Lispector estaria autografando seus livros numa televisão, à noite. Jantei e saí ventando. Cheguei lá timidíssimo, lógico. Vi uma mulher linda e estranhíssima num canto, toda de preto, com um clima de tristeza e santidade ao mesmo tempo, absolutamente incrível. Era ela. Me aproximei, dei os livros para ela autografar e entreguei o meu Inventário. Ia saindo quando um dos escritores vagamente bichona que paparicava em torno dela inventou de me conhecer e apresentar. Ela sorriu novamente e eu fiquei por ali olhando. De repente fiquei supernervoso e sai para o corredor. Ia indo embora quando (veja que GLÓRIA) ela saiu na porta e me chamou: — “Fica comigo.” Fiquei. Conversamos um pouco. De repente ela me olhou e disse que me achava muito bonito, parecido com Cristo. Tive 33 orgasmos consecutivos. Depois falamos sobre Nélida (que está nos States) e você. Falei que havia recebido teu livro hoje, e ela disse que tinha muita vontade de ler, porque a Nélida havia falado entusiasticamente sobre o Lázaro. Aí, como eu tinha aquele outro exemplar que você me mandou na bolsa, resolvi dar a ela. Disse que vai ler com carinho. Por fim me deu o endereço e telefone dela no Rio, pedindo que eu a procurasse agora quando for. Sai de lá meio bobo com tudo, ainda estou numa espécie de transe, acho que nem vou conseguir dormir. Ela é demais estranha. Sua mão direita está toda queimada, ficaram apenas dois pedaços do médio e do indicador, os outros não têm unhas. Uma coisa dolorosa. Tem manchas de queimadura por todo o corpo, menos no rosto, onde fez plástica. Perdeu todo o cabelo no incêndio: usa uma peruca de um loiro escuro. Ela é exatamente como os seus livros: transmite uma sensação estranha, de uma sabedoria e uma amargura impressionantes. É lenta e quase não fala. Tem olhos hipnóticos, quase diabólicos. E a gente sente que ela não espera mais nada de nada nem de ninguém, que está absolutamente sozinha e numa altura tal que ninguém jamais conseguiria alcançá-la. Muita gente deve achá-la antipaticíssima, mas eu achei linda, profunda, estranha, perigosa. É impossível sentir-se à vontade perto dela, não porque sua presença sej a desagradável, mas porque a gente pressente que ela está sempre sabendo exatamente o que se passa ao seu redor. Talvez eu esteja fantasiando, sei lá. Mas a impressão foi fortíssima, nunca ninguém tinha me perturbado tanto. Acho que mesmo que ela não fosse Clarice Lispector eu sentiria a mesma coisa. Por incrível que pareça, voltei de lá com febre e taquicardia. Vê que estranho. Sinto que as coisas vão mudar radicalmente para mim — teu livro e Clarice Lispector num mesmo dia são, fora de dúvida, um presságio. Fico por aqui, já é muito tarde. Um grande beijo do teu

Caio

(Caio Fernando Abreu, in: Carta a Hilda Hilst - Caio 3D - Decáda de 70)

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Que


Qual candura removeu seu sofrimento?
Que esperança devolveu
muito tenro o seu sorriso?
Que força a sustém?
Não, não me responda.
Deixe-me quieta, quase solitária.
Pretendo dar meus próprios passos,
para que não reste
dívida alguma nestes versos.

(Elaine Pauvolid)

Carta


Meu caro amigo,
estou cansada de tentar
fazer o correto;
tudo me desalinha.
Sigo, decerto,
sem a menor noção
do que é certo;
vou bem.

(Elaine Pauvolid)

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

?


A Taylor van Horne, e em homenagem aos poetas do desassossego.


há uma parte da vida que me apavora
este desassossego entre árvores e águas
segredos, sinos, mistério.

um não sei o quê
calmaria e turbulência.

sair e ao voltar querer sair querendo ficar
para os braços ou para o ventre?

é noite, noite
o vento no rosto em alta velocidade
vento, nuvens:

o júbilo, o Nada, o sem nome, o Nunca Mais.

(Cristiane Grando)

½ dor


Ando
lacrimejando
um olho só.
Que dor é essa
que se sofre
de um lado apenas?

(Cecília Borges)

Pulmão de Deus


Sussurro suave ao redor, nuvem
de seda embalando astros.
Aqui, onde respira a vida,
perfume de malva, silêncio de córrego
entre pedras. Ar lúcido de luz.

(Bárbara Lia)

Desencontro


Remexo dentro de mim,
nem sempre é fácil
saber a parte de nós
que ficou no caminho:
toco... Faço a ferida arder.
Sentir a ferida, é a maneira
mais rápida de curá-la.
Nada em mim foi covarde,
nem mesmo as desistências:
desistir, ainda que não pareça,
foi meu grande gesto de coragem.

(Cáh Morandi)

Separação


Desmontar a casa
e o amor. Despregar
os sentimentos das paredes e lençóis.
Recolher as cortinas
após a tempestade
das conversas.
O amor não resistiu
às balas, pragas, flores
e corpos de intermeio.

Empilhar livros, quadros,
discos e remorsos.
Esperar o infernal
juizo final do desamor.

Vizinhos se assustam de manhã
ante os destroços junto à porta:
- pareciam se amar tanto!

Houve um tempo:
uma casa de campo,
fotos em Veneza,
um tempo em que sorridente
o amor aglutinava festas e jantares.

Amou-se um certo modo de despir-se
de pentear-se.
Amou-se um sorriso e um certo
modo de botar a mesa. Amou-se
um certo modo de amar.

No entanto, o amor bate em retirada
com suas roupas amassadas, tropas de insultos
malas desesperadas, soluços embargados.

Faltou amor no amor?
Gastou-se o amor no amor?
Fartou-se o amor?

No quarto dos filhos
outra derrota à vista:
bonecos e brinquedos pendem
numa colagem de afetos natimortos.

O amor ruiu e tem pressa de ir embora
envergonhado.

Erguerá outra casa, o amor?
Escolherá objetos, morará na praia?
Viajará na neve e na neblina?

Tonto, perplexo, sem rumo
um corpo sai porta afora
com pedaços de passado na cabeça
e um impreciso futuro.
No peito o coração pesa
mais que uma mala de chumbo.

(Affonso Romano de Sant'Anna)

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Extremos da paixão

Nonnetta

Não, meu bem, não adianta bancar o distante lá vem o amor nos dilacerar de novo...

Andei pensando coisas. O que é raro, dirão os irônicos. Ou "o que foi?" - perguntariam os complacentes. Para estes últimos, quem sabe, escrevo. E repito: andei pensando coisas sobre amor, essa palavra sagrada. O que mais me deteve, do que pensei, era assim: a perda do amor é igual à perda da morte. Só que dói mais. Quando morre alguém que você ama, você se dói inteiro (a) mas a morte é inevitável, portanto normal. Quando você perde alguém que você ama, e esse amor - essa pessoa - continua vivo (a), há então uma morte anormal. O NUNCA MAIS de não ter quem se ama torna-se tão irremediável quanto não ter NUNCA MAIS quem morreu. E dói mais fundo- porque se poderia ter, já que está vivo (a). Mas não se tem, nem se terá, quando o fim do amor é: NEVER.
Pensando nisso, pensei um pouco depois em Boy George: meu-amor-me-abandonou-e-sem-ele-eu-nao-vivo-então-quero-morrer-drogado. Lembrei de John Hincley Jr., apaixonado por Jodie Foster, e que escreveu a ela, em 1981: "Se você não me amar, eu matarei o presidente". E deu um tiro em Ronald Regan. A frase de Hincley é a mais significativa frase de amor do século XX. A atitude de Boy George - se não houver algo de publicitário nisso - é a mais linda atitude de amor do século XX. Penso em Werther, de Goethe. E acho lindo.
No século XX não se ama. Ninguém quer ninguém. Amar é out, é babaca, é careta. Embora persistam essas estranhas fronteiras entre paixão e loucura, entre paixão e suicídio. Não compreendo como querer o outro possa tornar-se mais forte do que querer a si próprio. Não compreendo como querer o outro possa pintar como saída de nossa solidão fatal. Mentira: compreendo sim. Mesmo consciente de que nasci sozinho do útero de minha mãe, berrando de pavor para o mundo insano, e que embarcarei sozinho num caixão rumo a sei lá o quê, além do pó. O que ou quem cruzo entre esses dois portos gelados da solidão é mera viagem: véu de maya, ilusão, passatempo. E exigimos o terno do perecível, loucos.
Depois, pensei também em Adèle Hugo, filha de Victor Hugo. A Adèle H. de François Truffaut, vivida por Isabelle Adjani. Adèle apaixonou-se por um homem. Ele não a queria. Ela o seguiu aos Estados Unidos, ao Caribe, escrevendo cartas jamais respondidas, rastejando por amor. Enlouqueceu mendigando a atenção dele. Certo dia, em Barbados, esbarraram na rua. Ele a olhou. Ela, louca de amor por ele, não o reconheceu. Ele havia deixado de ser ele: transformara-se em símbolos em face nem corpo da paixão e da loucura dela. Não era mais ele: ela amava alguém que não existia mais, objetivamente. Existia somente dentro dela. Adèle morreu no hospício, escrevendo cartas (a ele: "É para você, para você que eu escrevo" - dizia Ana C.) numa língua que, até hoje, ninguém conseguiu decifrar.
Andei pensando em Adèle H., em Boy George e em John Hincley Jr. Andei pensando nesses extremos da paixão, quando te amo tanto e tão além do meu ego que - se você não me ama: eu enlouqueço, eu me suicido com heroína ou eu mato o presidente. Me veio um fundo desprezo pela minha/nossa dor mediana, pela minha/nossa rejeição amorosa desempenhando papéis tipo sou-forte-seguro-essa-sou-mais-eu. Que imensa miséria o grande amor - depois do não, depois do fim - reduzir-se a duas ou três frases frias ou sarcásticas. Num bar qualquer, numa esquina da vida.
Ai que dor: que dor sentida e portuguesa de Fernando Pessoa - muito mais sábio -, que nunca caiu nessas ciladas. Pois como já dizia Drummond, "o amor car(o,a,) colega esse não consola nunca de núncaras". E apesar de tudo eu penso sim, eu digo sim, eu quero Sins.

(Caio Fernando Abreu, in: Pequenas Epifanias)

quarta-feira, 4 de novembro de 2009


[...] mudou de cara e cabelos mudou de olhos e risos mudou de casa
e de tempo: mas está comigo está
perdido comigo
teu nome
em alguma gaveta [...].

(Ferreira Gullar, in: Fragmento de Poema Sujo)

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Saudosa amnésia


Memória é coisa recente.
Até ontem, quem lembrava?
A coisa veio antes,
ou, antes, foi a palavra?
Ao perder a lembrança.
grande coisa não se perde.
Nuvens, são sempre brancas.
O mar? Continua verde.

(Paulo Leminski)

Arte do chá


ainda ontem
convidei um amigo
para ficar em silêncio
comigo.

ele veio
meio a esmo
praticamente não disse nada
e ficou por isso mesmo.

(Paulo Leminski)

domingo, 1 de novembro de 2009

Reverberação


O destino trama os dias
e desfaz o sonho: demarca
meus contornos, partes
disso que sou e serei.

Quem sabe desejei demais:
milagres não me bastaram,
mas quando eu quis ser rainha
fui simplesmente humana.

A voz da vida insiste,
chama para o que salva
ou desatina:
nem sempre a entendi.

Palavras buscam sentido
para o que fiz, falhei,
conquistei e perdi
- ou que me abandonou
nalguma esquina.

(Talvez eu precisasse é dos silêncios.)

(Lya Luft, in: Para não dizer adeus)

Revelação


Quando chegaste,
redescobri em mim inocência e alegria.
Removi a máscara que sobrava:
nada havia a esconder de ti,
nem medo - a não se partires.

Supérfluas as palavras,
dispensada a aparência, fiquei eu,
sem prumo,
como antes da primeira dúvida
e do ultimo desencanto.

Quando chegaste,
escutei meu nome como num outro tempo.
o meu lado da sombra entregou
o que ninguém via:
as feridas sem cura e a esperança sem rumo.

Começa a crer, por mim, que o amor é possível,
e que a vida vale a pena e o pranto
de cada dia.

(Lya Luft, in: Para não dizer adeus)

Dizendo adeus


Estou sempre dando adeus:
também ao desencontro e ao
desencanto.

Estou sempre me despedindo
do ponto de partida que me lança de si,
do ponto de chegada que nunca é
aqui.

Estou sempre dando adeus:
até a Deus,
para reencontrar em outra esquina
de adeuses.

Estarei sempre de partida,
até o momento de sermos deuses:
quando me fizeres dar adeus á solidão
e à sombra.

(Lya Luft, in: Para não dizer adeus)

[...] Temos dificuldade em lidar com o silêncio: ele ressoa mal no vazio do nosso interior. Embora seja difícil de curtir (ah, a música ao vivo, a praia com alto-falantes, a ginástica dirigida, os brinquedos comandados, a diversão atordoante em casa, no clube, no mar...), é nele que nos humanizamos - pela palavra certa, a palavra boa, a palavra respeitosa mas firme.

O medo de errar muitas vezes nos leva ao erro, e o desejo excessivo de acertar nos rouba a naturalidade: calamos quando seria melhor falar, falamos quando teria sido melhor dizer alguma coisa, qualquer coisa.

Mas nem sempre sabemos a hora, a palavra, a pessoa certa.

Assim como solidão não precisa significar isolamento, silêncio não precisa ser um corte: pode ser nossa melhor maneira de falar, naquele momento, com aquele interlocutor. Aí ele não compreende, e, mais uma vez, somos incomunicáveis.

Calar pode ser um bom exercício para nossa mente aflita de tantas informações, paralisada entre tantas escolhas, dilacerada em transformações vertiginosas como as deste tempo nosso.

Pensar sobre nós e nossa vida é um exercício: o que eu realmente desejaria ser, e o que posso fazer? Como chegar perto de mim, eu mesmo, esse que está sempre por ser descoberto?

Pode ser um bom começo ouvir a chuva no telhado, a pessoa amada vindo pelo corredor, e a consciência que fala ao nosso coração - quando ele está atento.

(Lya Luft, in: Em Outras Palavras)

sábado, 31 de outubro de 2009

Câmera obscura


meu amor
afinal de contas
você me matou
ou não me matou
estou morto
ou não estou morto
pergunto
e interrompo a resposta
do fantasma com o qual
converso toda as noites
antes de dormir
e antes de tentar matá-lo
acendendo a luz.

(Bruna Beber)

sexta-feira, 30 de outubro de 2009


Em mim
o vazio
de todas as ausências.

A dor dos amigos
que partiram

A falta do meu pai
que se foi

O vôo dos amores
que não deixaram ninhos

Em mim
a dor da solidão
de toda espera.

(Ademir Antonio Bacca)

De repente estou só. Dentro do parque, dentro do bairro, dentro da cidade, dentro do estado, dentro do país, dentro do continente, dentro do hemisfério, do planeta, do sistema solar, da galáxia - dentro do universo, eu estou só. De repente. Com a mesma intensidade estou em mim. Dentro de mim e ao mesmo tempo de outras coisas, numa sequência infinita que poderia me fazer sentir grão de areia. Mas estar dentro de mim é muito vasto [...].

(Caio Fernando Abreu)

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Viola de amor


Nas ondas do mar me enlevo
nessas ondas me redimo
meus sofrimentos são nada
nas águas das ondas claras

(nos ventos do mar me enlevo
nesses ventos me redimo
sofrer é estar de passagem
entre o agora e o eterno)

Como as ondas que se quebram
e são sempre as mesmas ondas
vou seguindo meus destinos
como as ondas que se quebram

(como os ventos que nos passam
e nos levam os pensamentos
vou vagando, vendaval
devassando e devassado).

(Antonio Brasileiro)

Coisas guardadas




Florzinha branca,
quando eu me libertar de tudo isso...

(Antonio Brasileiro)

Lírica


Amar é temer a si nas horas cruas,
é não encontrar a pérola perdida
onde?

amar oh amar
é saber-se pequeno, sísifo, somente –
é saber-se somente, unicamente
– oh amar! –

amar amar
como se a própria face não bastara
– e completar-se na face projetada
e projetar-se no gozo e além do gozo
e além do gozo no filho e além do filho na
eternidade,
amor ah amor
é saber-se perdido, é não saber-se:
e amanhã será tudo esquecido.

(Antonio Brasileiro)

Loucura e poesia



Furtava as cores de todas as paisagens
que colhia.
Um dia morreu
e um arco-íris bebia
seus olhos.

(Antonio Brasileiro)

Poema de amor


E era azul o dia da partida.
Não um azul azul como os azuis da alma
colorida, mas negro azul, profunda
escuridão beirando o nada.

Azul
assim, hermético, escuro –
escuro como a alma, não a calma, a
alma: pois era azul,
luz última, o dia da partida.

(Antonio Brasileiro)

terça-feira, 27 de outubro de 2009


Que tanto buscamos?
O rabo esquecido
na alba?

Quem tanto
nos chama? A voz
esquecida no antanho?
Quem chama? Onde estamos?

Quem somos? Sabíamos
que é fim? É
silêncio
o nome que bradam
as máquinas obscuras
do Tempo? Que tempo?
Que tempos? Quem somos?

(Antonio Brasileiro)

Estar com o rio não é molhar-se na água.
Nem ser leito.
É ser a água e o leito.
E o mar.
E ser as nuvens do céu.

Nosso destino é o que somos. Somos
o destino – o olho d’água
e a foz.
Somos a foz
e o ruído das águas se encontrando.

E as nuvens do céu e o homem
sentado numa pedra. E a pedra.

(Antonio Brasileiro)